Uma clínica, um empréstimo e muitas folhas de Excel

Como abri a minha primeira clínica: a vontade de fazer diferente, as contas, o medo e a família que ajudou a construí-la.

Por

· Publicado

· Atualizado

·

2-3 minutos

Quando decidi abrir a minha primeira clínica, já tinha trabalhado para outras pessoas.

Estava relativamente bem. Tinha trabalho, estabilidade e uma profissão de que gostava.

Mas havia qualquer coisa que me faltava.

Queria fazer as coisas à minha maneira. Queria oferecer uma experiência diferente. E, acima de tudo, queria mostrar que não era preciso sair do Alentejo para ter acesso a cuidados de saúde de qualidade.

Uma casa, poucas poupanças e muito para aprender

O problema é que a vontade era grande, mas a conta bancária não acompanhava.

Tinha acabado de comprar casa, não dispunha de grandes poupanças e sabia muito pouco sobre aquilo que significava gerir uma empresa.

Ou melhor, achava que sabia algumas coisas.

E há uma lição de gestão que nunca mais esqueci:

O que se acha não se sabe.

Livros, emails e muitas folhas de Excel

Por isso, comecei a estudar.

Li livros de gestão. Enviei emails. Fiz perguntas. Construí folhas de Excel. Fiz contas, voltei a fazê-las, desenhei cenários e elaborei análises SWOT.

Algumas fi-las à mão, com marcadores coloridos, em folhas espalhadas por uma mesa. Forças, fraquezas, oportunidades, ameaças, metas, objetivos. E duas folhas que não vêm em nenhum manual: «Porque abrir?» e «Porque não abrir?».

Mesa coberta de folhas escritas à mão com títulos coloridos: «Porque abrir?», «Porque não abrir?», Forças, Fraquezas, Oportunidades, Ameaças, fatores internos e externos, um smile desenhado e um portátil aberto.
«Porque abrir?» e «Porque não abrir?», lado a lado.
A mesma mesa vista do outro lado, com as folhas Metas e Objetivos em primeiro plano, marcadores espalhados e um cartão com o símbolo do euro.
Metas e objetivos, ao lado de um euro desenhado num papel.

Pedi um empréstimo.

A decisão

Tinha medo. Muito.

Selfie do Eduardo, de capuz e ar desconfiado, ao lado de uma mesa com as folhas da análise SWOT, entre elas Fraquezas e Fatores internos.
Durante a análise SWOT.
Selfie do Eduardo de olhos muito abertos, encostado à folha «Porque não abrir?», onde se lê, escrito à mão, «Please! No!».
«Porque não abrir?» Na margem, à mão: «Please! No!».

Mas havia uma ideia que não me saía da cabeça: se acreditava tanto numa forma diferente de prestar cuidados, tinha de tentar construí-la.

Uma clínica feita por muitas mãos

A minha família foi fundamental. Ajudou a pintar o espaço, a construir o balcão de atendimento e a transformar uma ideia num lugar onde, finalmente, podíamos receber pessoas.

O balcão construí-o eu, com o meu pai. A minha irmã, a Sara, pintou à mão o logótipo na parede da receção. Eu descobri o meu lado de «bricolage guy».

Selfie do Eduardo de boca aberta e a fazer o gesto shaka, enquanto a irmã, Sara, de costas, pinta à mão o logótipo da É-DU-DENTE na parede da receção.
A Sara a pintar o logótipo.
Selfie do Eduardo, com ar resignado, a segurar uma pistola de silicone; na imagem lê-se «Bricolage guy».
A legenda é da altura.
Receção da É-DU-DENTE: cadeiras brancas, balcão de madeira com tons azulados e o logótipo da clínica, um dente e um sorriso com aparelho, desenhado a preto na parede.
O balcão que construí com o meu pai.

E os meus melhores amigos, quase todos dentistas, vieram apoiar-me.

Selfie de oito amigos na clínica, a fazer caretas com material dentário: afastadores labiais na boca, um fotopolimerizador de luz azul, um aparelho de raio-X e um boticão.

O que nenhuma folha de Excel antecipa

Depois vieram os desafios que nenhuma folha de Excel consegue antecipar completamente: gerir dinheiro, pessoas, pacientes, fornecedores e todas as decisões que aparecem quando somos responsáveis por um negócio.

Não sabia se ia resultar.

Mas também não estava disposto a desistir antes de tentar tudo o que estivesse ao meu alcance.

Foi assim que começou a É-DU-DENTE.

Fachada da clínica, branca com barras amarelas, com o letreiro «Clínica Médica Dentária» e o logótipo da É-DU-DENTE; os contactos do letreiro estão desfocados.
A primeira fachada, na Longueira.

Abrimos a porta a 23 de janeiro de 2017, na Longueira, no concelho de Odemira. Em 2024, o Município de Odemira atribuiu-me o Prémio Espírito Empreendedor. Hoje a É-DU-DENTE está na Boavista dos Pinheiros. Mas essa já é outra história.

Troféu em forma de lâmpada, feito de rede de arame com filamento e haste de cobre em ziguezague, sobre uma base de madeira com uma placa onde se lê «1.º prémio, ideia empreendedora e criativa, 2024».
O troféu do Prémio Espírito Empreendedor: 1.º prémio, ideia empreendedora e criativa, 2024.

Sobre o autor

Eduardo Guerreiro é médico dentista, investigador, professor universitário e empreendedor. Escreve sobre ciência, saúde, educação, empreendedorismo e desenvolvimento humano.

Continua a ler

Deixe uma Resposta